Aluna: Mariana Soutto Mayor
Habilitação: Teoria Teatral - Dramaturgia
Orientação: Sérgio de Carvalho
A minha pesquisa no primeiro semestre consistiu em estudar alguns textos e peças que exploravam a temática da expropriação de camponeses da terra.
O que praticamente fiz foi o estudo da peça "Os Azeredo mais os Benevides", de Vianinha, do filme "Os fuzis", de Ruy Guerra e do livro "Os deserdados da terra", da antropóloga Margarida Maria Moura. Enquanto esses estudos individuais aconteciam, um grupo que está se reunindo na usp formado por alunos do cac estavam elaborando uma releitura da peça "Os Azeredo mais os Benevides".
Para o próximo semestre, a ideia é me unir ao grupo e prepararmos juntos uma dramaturgia nova a partir da peça do Vianinha, mas que tente de alguma forma usá-la como o início de um processo histórico que culmine na formação das periferias em São Paulo.
Artigo:
Para contar histórias de fome: pequeno estudo comparativo entre Os Fuzis e Os Azeredo mais os Benevides
Duas obras de arte da década de 60 são fundamentais como reflexões estéticas e políticas sobre a questão agrária no Brasil. O filme Os Fuzis de Ruy Guerra e o texto teatral Os Azeredo mais o Benevides, de Vianinha constituem-se referenciais sobre o tema em debate, aprofundando-o a partir de perspectivas diferentes e com soluções formais variadas.
Os Fuzis, de 1964, com roteiro de Ruy Guerra, Pierre Pelegri e Miguel Torres, trata de retirantes organizados através de um movimento religioso adorador do boi santo em um vilarejo no nordeste brasileiro. Por conta da miséria e da fome generalizada, o coletivo de famintos saqueia um armazém, e o dono (que também é o proprietário de terras e só possui o armazém para vender alimentos para seus próprios lavradores), por sua vez, decide chamar um grupo de soldados para ordenar a situação e impedir uma nova onda de saques.
É a partir desse argumento que é feito um estudo de perspectivas sobre a miséria, revelando as ambíguas relações de poder e opressão que permeiam aquela vila. A obra não busca as causas do problema, desenvolvendo uma trajetória clara e esquemática, mas estrutura os coletivos em questão levando em conta suas fragilidades e contradições.
Os Fuzis é considerado uma obra prima pelo crítico Roberto Schwarz por afirmar a miséria como aberração e não em termos de compaixão. A força do filme estaria portanto em sua forma que assume uma perspectiva de não compadecimento do espectador. O objetivo dessa mudança de ponto de vista seria o de fazer com que o público se responsabilize pelo o que está vendo na tela. Nas palavras do próprio crítico: “Estética e politicamente a compaixão é uma resposta anacrônica, quem o diz são os próprios elementos de que o cinema se faz: máquina, laboratório e financiamento não se compadecem, transformam. É preciso encontrar sentimentos à altura do cinema, do estágio técnico de que ele é sinal.”
O conflito do filme centra-se entre os miseráveis e os soldados, os primeiros representados pelo povo das cidades vizinhas em que o filme foi rodado, de maneira distanciada, sem nenhum psicologismo, quase documental. Os soldados, por outro lado, representados por atores, esboçam uma trajetória de personagens, contradições e humanidade.
O dono do armazém, que na estrutura de poder está no topo da hierarquia, aparece em duas cenas praticamente. Fica claro que o jogo, portanto, não se dá entre explorador e explorados, mas sim entre os soldados e o povo, uma esfera mais ambígua e contraditória por ambos serem oprimidos em níveis diferentes.
É interessante perceber que a identificação do espectador foca os soldados, não os retirantes. A miséria como aberração de que fala Schwarz constrói-se nesse ponto de vista, pois em nenhum momento o público se sente próximo aos miseráveis; estes estão em outra lógica estética que foge à compreensão da classe média. Como os retirantes são representados pelo próprio povo das vilas vizinhas, e como habitantes pobres e miseráveis, facilmente diferenciam-se dos soldados pelos traços ásperos e rudes, por traços de comportamento pertencentes a quem de fato passa fome, trabalha muito, tem pouco conforto. E nisso há algo de incompreensível para os olhos do espectador, já que em nenhum momento este sente-se as dores daquele povo. O olhar da câmera guia-o para a manutenção da distância.
As cenas do filme vão se alternando entre os retirantes em procissões pelo boi santo e a trajetória dos soldados que se organiza a partir da chegada no vilarejo. Num jogo de identificação (cenas dos soldados) e distanciamento (cena dos retirantes), tem-se um enredo estruturado na relação de opressão com o retirantes a partir da cena do fuzil - a qual é inclusive muito bem comentada por Schwarz - a morte de um dos retirantes provocada pelos soldados, o conflito com o transportador de cebolas, a morte deste, a relação amorosa angustiante entre uma moradora e um soldado e por fim a saída incômoda dos soldados do vilarejo e a não resolução da situação de absoluta miséria.
Na formalização dessa história não há conflitos dramáticos que encadeiam a estrutura de modo a fazer o espectador acompanhar uma triste história de miséria. Todas as cenas possuem uma lógica interna e caracterizam-se por um estilo áspero, que num primeiro momento poderia confundir o espectador desconcentrado, mas que um tempo depois, permite a estruturação de um enredo épico e a organização de uma estética sintética e violenta.
E sobre estética, o filme, como parte do movimento do cinema novo, fundamenta-se na “estética da fome”, teorizada por Glauber Rocha no famoso manifesto de 1965. No artigo, Glauber discorre sobre a violência como a maior manifestação cultural da fome, pois para ele a fome é o nervo de nossa sociedade - como tragédia, mas ironicamente também como originalidade e riqueza.
A violência gerada pela fome não ocasiona só ódio, pois ao mesmo tempo liga-se a manifestações de amor e afeto. Entretanto, tudo está imbricado em brutalidades e asperezas, gerando relações sociais tortas, ambíguas, estranhadas - e no filme, todos os grupos sociais estão caracterizados a partir dessa estética, tanto as relações entre os soldados como entre os miseráveis. A fome torna-se uma lógica em todos os termos sociais naquela vila que faz com que os indivíduos, os ambientes, os animais, comportam-se e relacionem-se de maneira violenta.
Roberto Schwarz também atenta para o deslocamento de foco do filme - há um desconcerto visível dos soldados em relação aos miseráveis, que a cada dia estão mais famintos. Entretanto, o único a se contrapor a essa questão e se posicionar publicamente é o carregador de cebolas, que num ímpeto de violência, acaba sendo morto pelos soldados. O deslocamento estaria nessa ação, estruturando o filme não a partir de relações causais, mas de redes de tensões sociais acumuladas.
O final do filme mostra os famintos devorando o boi santo, superando qualquer mística por uma violenta ação dos retirantes, que até então estavam inertes. Ainda retomando a crítica de Schwarz, o autor comenta que a devoração é um eco da morte do transportador, não uma conseqüência direta. O que é mais um indício de uma descontinuidade do filme, em que todos os acontecimentos fermentam possíveis ações, mas não decorrem de nada específico, revelando mais as tensões entre os grupos sociais envolvidos do que um conflito direto.
Discutindo uma temática parecida, mas com outras resoluções formais está o texto dramático de Vianinha, escrito em 1963 e com encenação prevista para a reinauguração do teatro da UNE em 1964, que revela as tensões irreconciliáveis entre um proprietário de terras e um lavrador através da amizade entre Espiridião e Alvimar.
O texto de gênero épico e com visíveis inspirações no teatro dialético de Brecht, constrói duas perspectivas de mundo, a do proprietário e a do lavrador, que se alternam cena a cena lembrando a estrutura de Os Fuzis - é interessante perceber esse jogo de perspectivas utilizados em ambas as obras, revelando que para se dar conta de um tema com questões de profundas raízes históricas, é necessário contar a história com mais de uma voz, mais de uma trajetória, enfatizando as relações no entre trajetórias de personagens.
Resumidamente, a história da peça começa com a resolução de Espiridião, filho de decadentes importadores de pias e bidês ingleses, que resolve, num ímpeto nacionalista e progressista, ir para a Bahia, utilizar terras da família e se tornar um grande produtor de cacau. De outro lado, estão camponeses em trânsito, já expropriados de suas terras que vão para a propriedade de Espiridião se submeter a uma relação de agregação¹ com o fazendeiro.
¹ De acordo com a antropóloga Margarida Maria Moura, agregação é uma relação de subordinação para com o fazendeiro. O acesso à casa e as terras se dá por meio de um pedido de casa de morada (envolve uma série de direitos e obrigações). O agregado é uma pessoa livre, mas que está sob o controle do fazendeiro. No caso da peça, os lavradores recebem um pagamento pelos trabalhos, constituindo-se na realidade uma relação de agregação mercantilizada. Os lavradores não são exatamente trabalhadores livres por estarem à disposição do fazendeiro, mas o fato de receberem transforma a relação tradicional de agregação em algo que se encaminha para uma proletarização rural.
O camponês que se destaca é Alvimar por ser mais forte e por oferecer num ímpeto uma ajuda ao proprietário. Desde essa oferta, esboça-se a relação de amizade controversa entre lavrador e fazendeiro, a qual irá permear toda a peça. A partir daí há o desenrolar da trajetória desses personagens em três atos que utilizam como base a produção do cacau: apogeu, declínio e total abandono.
O pesquisador Rafael Villas Boas faz uma análise do texto centrada no que chamou de dialética da ordem e da desordem, em que a figura de Alvimar concentra ações que correm nos dois sentidos. Essa dialética está relacionada ora a manutenção de uma ordem social ligada às elites dominantes, ora a uma desordem relacionada à ímpetos de subversão dessa mesma ordem. Entretanto, Alvimar assim como os outros lavradores não está alheio à condição de exploração - o pesquisador atenta que as suas tentativas de solucionar o problema nunca se confrontam com a ordem social, correndo sempre por vias paliativas, que na realidade acabam por reforçá-la.
Essa dialética evidencia a ética do favor, característica que Roberto Schwarz em As idéias fora do lugar e Sérgio Buarque de Hollanda em O Homem cordial determinam como estruturantes na sociabilidade brasileira. Os dominantes ou dominados aproveitam-se da mistura entre o mundo público e privado, regida por afetos e cordialidade para tirarem proveitos pessoais. Como diz Schwarz: “O favor pratica, ponto a ponto, a dependência da pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada, a remuneração e serviços pessoais“.
Daí a ligação entre essa ética e a dialética da ordem e desordem que só é dialética porque está em bases ambíguas de sociabilidade. Todo o empenho de Alvimar no trabalho como homem mais forte e lucrativo é usado como chantagem para Espiridião estabelecer uma competitividade entre os camponeses. Por outro lado, Alvimar aprendeu a lucrar com a lógica do favor e tenta conciliar uma boa imagem perante o fazendeiro e ao mesmo tempo, desordena com a venda de cacau para o vizinho, o uso de bebidas alcoólicas na bodega e a concordância com os pequenos furtos do filho na casa do fazendeiro.
Todas essas ações na realidade encaminham-se para reiterar a lógica de forças já estabelecidas. Espiridião é um grande proprietário de terras e isso já diferencia sua relação com os lavradores. A relação é de exploração, por mais que tenha nuances de afetos ou estima. A ética do favor vem para confundir e turvar o que possibilitaria uma subversão coletiva por parte dos lavradores. Entretanto ela efetivamente contribui para um amortecimento dos conflitos e tensões sociais.
É interessante reiterar que a organização da peça está relacionada com a produção e não somente com trajetórias individuais. Isso determina um ponto de vista político, calcado numa visão materialista histórica por parte do autor que quer estudar a perpetuação da miséria contrastada com um discurso progressista por parte das elites dominantes.
O texto é épico, mesclando curtas cenas dramáticas e uma estrutura com conseqüências trágicas para os trabalhadores, já que a relação entre fazendeiro e lavrador culmina na morte do filho de Alvimar, marcando a impossibilidade de relação entre as duas classes. O camponês não consegue vingar a morte do filho e resigna-se a aceitar e ainda agradecer o dinheiro oferecido pelo patrão. Para o pesquisador Rafael Villas-Boas, o texto revela que não há mobilidade social e que do ponto de vista simbólico, a morte de Espiridião filho desmascara a ideologia do favor.
Os Azeredo mais os Benevides é a história de uma amizade contraditória em que afeto e mercadoria se confundem. O movimento de subordinação de Alvimar frente ao fazendeiro culmina em uma expropriação não apenas de terra, mas de sua identidade. O camponês participa de um mecanismo perverso de quanto mais trabalho mais barbárie envolvida - tudo o que ele acha que faz para o bem de si próprio e da família, na realidade contribui para uma engrenagem de mercantilização de humanidades.
De outro ponto de vista, Espiridião no terceiro ato posiciona-se como vítima do trabalho mal desempenhado pelos lavradores. Ele se coloca como o bom patrão traído por seus empregados, como se não fosse responsável em nenhuma instância pela miséria dos camponeses, enfatizando como discurso do favor está contaminado por intenções contraditórias.
Entre Os Fuzis e Os Azeredo mais os Benevides pode-se encontrar muitos pontos em comum. Ambas as obras discutem a perpetuação da miséria em diferentes contextos. O filme questiona o messianismo como possível organização social, disseca relações de opressão e provoca o espectador a tratar os miseráveis como uma classe irreconciliável - mais do que existir, a luta de classes não permite aproximações em nenhum nível no longa-metragem.
Na peça, essa questão também é colocada, mas através da ótica do favor. Nesse tipo de sociabilidade caracteristicamente brasileira, os conflitos sociais travestem-se e mascaram-se por meio de falsos afetos e intimidades. Vianinha constrói uma dramaturgia para provar que o favor não significa amizade e por isso, a aproximação entre classes distintas também é impossível.
Tratando de temas comuns e com objetivos discursivos que também se encontraram, o filme e a peça chegam a resoluções formais um pouco distintas. Em Os Fuzis radicalmente opta-se pela não identificação do espectador pelos miseráveis. Isso é levado tanto ao extremo que a questão se abrange para se ainda seria possível a classe média representar os miseráveis.
Ruy Guerra, ao contrário de Vianinha, coloca um abismo nessa questão; uma classe só pode falar por si mesma e se os artistas que querem discutir a miséria - fundamental questão da sociedade brasileira - eles têm de assumir o ponto de vista de sua classe e só. A alteridade mantêm-se à distância; o outro é um estrangeiro.
Em Os Azeredo mais os Benevides há a representação de camponeses assim como dos patrões. Representam-se várias classes, mas a profundidade e qualidade do texto ao tratar dos conflitos entre grupos sociais está na discussão da cordialidade. Os personagens são criados para gerar identificações, entretanto suas complexidades transitam por lógicas estranhas - nada de um percurso dramático que dignifica o homem, vitimizando-o ou vilanizando-o. Em alguma medida, todos são explorados, mas também tiram proveitos. Participam de um sistema de forças muito maior que o cenário da fazenda, mas também são responsáveis por seus atos.
De outro ponto de vista, pode-se supor que não só o filme, mas também a peça possuem uma estética de fome, pois caracterizam-se em estruturas secas, fragmentadas e violentas. O gênero épico rege as duas obras, permitindo que se trate de relações sociais dependentes de contextos históricos muito maiores do que si mesmas.
Ambas as obras complementam-se favorecendo uma discussão social e política sobre a miséria. Tanto o teatro e o cinema tornam-se meios de se debater e se fazer política. A arte pelo prisma desses casos, com todas as suas especificidades, torna-se uma possibilidade de se vislumbrar mudanças sociais ao diagnosticar e estudar as causas de nossos problemas reais. Entretanto, por ser arte, as obras possuem um elevado nível de elaboração estética, fazendo da forma também um meio de discutir política.
Nenhum comentário:
Postar um comentário